Presença de mulheres à frente de startups está estagnada há dez anos, aponta estudo

Renata relata que falta de diversidade é ainda mais gritante entre as scale-ups
 
O crescimento do ecossistema de startups e venture capital no Brasil não tem acontecido de forma diversa e inclusiva. As mulheres fundaram apenas 9,8% das empresas no ecossistema atual de inovação; em 2011, elas eram 7,9% das fundadoras. É o que aponta o estudo Female Founders Report, realizado pela empresa de inovação Distrito, em parceria com a rede global de empreendedorismo Endeavor e a B2Mamy, que capacita e conecta mães ao ecossistema de inovação.
 
Quando pensamos apenas nas startups, 4,7% foram fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% por mulheres e homens. Há dez anos, quando o ecossistema brasileiro ainda estava no seu estágio inicial de desenvolvimento – tinha 18% do tamanho que tem hoje -, as operações de base tecnológica fundadas apenas por mulheres representavam 4,4% deste mercado.
 
Aquelas fundadas exclusivamente por homem eram 92,1% em 2011; hoje são 90,2%. Quando os quadros societários são analisados, a presença feminina é um pouco maior: 29,5% das startups brasileiras possuem mulheres entre os sócios.
 
“Os números comprovam uma disparidade de gênero imensa e que já era percebida pelo ecossistema de empreendedorismo. Proporcionalmente, o número de startups fundadas por homens é quase 20 vezes superior ao daquelas criadas por mulheres”, aponta a líder do Distrito for Startups, Lilian Natal.
 
Segundo ela, este levantamento traz uma fotografia atual da presença das mulheres neste universo. “Reconhecer o problema e entender a sua real grandeza é um primeiro passo para projetarmos uma economia mais igualitária, sustentável, equilibrada e justa”, acrescenta.
 
Atualmente, o ecossistema de startups brasileiro possui cerca de 13 mil startups, de acordo com o Distrito Dataminer, braço de inteligência de mercado do Distrito. Para o estudo, foram consideradas uma amostra de, aproximadamente, 6,2 mil startups que apresentaram dados suficientes para todas as analises propostas. Uma pesquisa qualitativa também foi aplicada a mais de 400 mulheres empreendedoras.
 
A diretora de Relações Institucionais e Advocacy da Endeavor, Renata Mendes, comenta que o modelo de impacto da entidade se baseia na figura do exemplo, mas, como apontado pelo estudo, há uma baixíssima representatividade de mulheres no ecossistema de inovação.
 
“O Female Founders nos mostrou que a falta de diversidade é ainda mais gritante entre scale-ups, grupo que representa apenas 4% das empresas do ecossistema”, diz, referindo-se às startups mais maduras. “Por isso, desde 2020, assumimos o compromisso de estimular o comprometimento das scale-ups com a construção de um ecossistema mais diverso e inclusivo”, acrescenta.
 
Os dados do Female Founders revelam como o empreendedorismo feminino é uma realidade recente e que está engatinhando no Brasil. Quase 65% das empresas com mulheres à frente surgiram só nos últimos cinco anos, e mais de 50% delas ainda estão em fase de validação de produto ou início de operações.
 
A validação do modelo de negócio (56,4%), a falta de boas conexões (44,6%) com investidores, mentores e outros empreendedores e a dificuldade em captar investimentos (38,8%) também são questões bastante apontadas pelas mulheres entrevistadas.
 
Esse último ponto, inclusive, é confirmado com outro dado levantado pelo estudo: as startups lideradas só por mulheres receberam apenas 0,04% dos mais de US$ 3,5 bilhões aportados no mercado em 2020.
 
Nesse contexto, o relatório mostra, por exemplo, a importância de aumentar a presença feminina na própria indústria de venture capital, como forma de reduzir essa assimetria. Hoje, 74% dos fundos não têm mulheres entre seus fundadores, nem mesmo conselhos. E apenas 3% têm apenas mulheres entre as fundadoras.
 
No grupo entrevistado, 72,4% das mulheres que passaram por dinâmicas de captação afirmaram ter sofrido assédio moral em função do gênero durante suas entrevistas. Muitas foram questionadas se eram ou se pretendiam ser mães, qual era a idade de seus filhos na ocasião, se possuíam homens no quadro societário e, ainda, se seriam capazes de tocar o negócio por conta própria.
 
“Sem pontes, capital e habilidades necessárias para navegar nesse universo, as mulheres não se sentem representadas nestes ambientes e suas jornadas são mais árduas”, comenta a CEO da B2Mamy, Dani Junco.
 
 
Fonte: Jornal do Comércio
 
09 de março de 2021

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