Com alta de 10,4% no faturamento, empresas gaúchas de TI dependem de capital humano para crescer

No trimestre, setor gerou 33 mil postos de trabalho no RS e conta com programas de formação para preencher 6 mil vagas em aberto, com salários de até R$ 15 mil    

Depois da alta de 10,4% no faturamento em 2020, as empresas gaúchas de tecnologia da informação (TI) têm um novo desafio: formar profissionais para acelerar o ritmo de crescimento conquistado durante a pandemia. 

Projeções da associação setorial no Estado (Assespro-RS) ainda indicam nova expansão de dois dígitos em 2021 e 2022.  Mas, para consolidar e até mesmo ampliar os resultados futuros, será preciso formar capital humano e preencher, pelo menos, 6 mil vagas em aberto no Rio Grande do Sul.  

Com salários que podem chegar a R$ 15 mil, o segmento respondeu por 33 mil postos de trabalho criados no segundo trimestre, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 10 anos, de 2010 a 2019, enquanto o pessoal ocupado no Estado saltou 21,15%, na TI o avanço foi de 32,6%.

Atualmente, com uma fatia de 11,5% da massa assalariada do RS, atrás apenas de áreas tradicionais da economia gaúcha, como agropecuária (13,7%), indústria (14,7%) e comércio (17,7%), no mercado de serviços em tecnologia não há desemprego cíclico. Pelo contrário, faltam pessoas e sobram oportunidades.  

— O setor cresce acima de 10% e o prosseguimento dessa escala está diretamente relacionado com a necessidade de pessoas qualificadas para atender às novas demandas — resume o presidente da Assespro-RS, Julio Ferst.  

A situação, entretanto, não é uma exclusividade do Rio Grande do Sul. Estimativas da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) revelam que a carência de profissionais poderá alcançar a marca de 400 mil em todo o país até 2024.  

O dado é fruto de uma equação que considera o aumento médio da demanda em 100 mil novas vagas, a cada ano. Em contrapartida, são formados apenas 46 mil profissionais em universidades, cursos técnicos e institutos federais em igual período.  

Programas de formação

Para amenizar o panorama, duas iniciativas gaúchas, não-governamentais, nascem com o propósito de preencher 6 mil postos já existentes por aqui. E muitas outras estão prontas para sair do papel, afirma Ferst. 

Uma delas é a “+prati”, que reúne 40 empresas do setor. Criado em 2020, o projeto ofereceu quatro trilhas de formação. No total, foram disponibilizadas 4 mil vagas para capacitação. Dessas, mais de mil bolsas de estudos ainda disponíveis. 

Alexandre Trevisan, coordenador do “+praTi”, explica que a projeção de crescimento na TI é 10 vezes superior à do PIB.  Isso gera oportunidades e desafios.  

— As oportunidades estão no potencial de criação de milhares de empregos bem remunerados e de qualidade, com potencial para movimentar toda a economia. O grande desafio é sensibilizar a sociedade para que compreenda essas oportunidades e se capacite para participar deste novo mercado — argumenta. 

Alguns aspectos da busca por formação chamam a atenção. Entre os participantes, 25% têm 40 anos de idade ou mais. Esse fator demonstra, segundo Trevisan, que há margem, inclusive, para a migração de profissionais insatisfeitos com determinados mercados de trabalho para a área de tecnologia.    

Outra ideia para aplacar o problema deve ganhar corpo até o final do ano. Trata-se do Campus Caldeira. O diretor- executivo do Instituto Caldeira, Pedro Freitas Valério, conta que o programa terá área de 4 mil metros quadrados, destinada para operadores de educação, em Porto Alegre. A meta: preencher 2 mil vagas já mapeadas.    

— Vamos ter desde graduação de computação, até escolas de sensibilização e treinamento para capacidades associadas à nova economia. Com isso, pretendemos criar um grande banco de talentos que vai preencher essas vagas existentes — diz. 

Dificuldades para contratar

A Zallpy Digital é uma empresa gaúcha que desenvolve soluções digitais para multinacionais como BMW, ThyssenKrupp e Engie, entre outras gigantes. A empresa faturou 40% a mais no primeiro semestre de 2021 e conta com cerca de 350 funcionários. Em um ano, ampliou em 35% o quadro de trabalhadores, mas continua com 50 vagas a serem preenchidas.  

Além da sede em Porto Alegre, tem unidade em Florianópolis, em Santa Catarina, e está presente no Parque Científico e Tecnológico do Pampa, em Alegrete. Só neste ano, investiu R$ 200 mil em recrutamento de talentos. Por essa razão, comenta o CEO Marcelo Castro, criou um programa próprio para a formação de mão de obra.   

Batizado de Zellpy Academy, o projeto já responde por 25% dos novos contratados. Para 2022, a base de participação deve chegar a 40%. Castro explica que a escassez de mão de obra também é influenciada pelo aumento da procura de empresas estrangeiras por profissionais brasileiros. Ou seja, segundo ele, mais do que gerar novos talentos, é preciso retê-los.  

— O mercado de TI vive um cenário de pleno emprego, onde não se consegue contratar. É um pouco causado pela busca de países mais desenvolvido por mão de obra no Estado. Esse movimento cresceu muito, com o real desvalorizado e o custo benefício dado pela qualificação dos nossos profissionais — analisa.  

O executivo também afirma que a falta de recursos humanos é o principal freio do setor hoje em dia. Castro explica que essa realidade faz com que determinados projetos levem muito mais tempo para serem implantados. E, quando isso acontece, na prática, é como se a empresa trabalhasse com um redutor de velocidade que bloqueia o real potencial de crescimento.   

Os números do setor no RS  
  • Faturamento de R$ 24,5 bilhões  
  • Em 10 anos, até 2019, a receita bruta total cresceu 74,26%  
  • 33 mil novas vagas abertas no segundo trimestre 
  • Em 10 anos, até 2019, as vagas saltaram 32,6%  
  • Alta de 31,8% em novas empresas 
  • Em 10 anos, até 2019, passou de 5,5 mil para 7,3 mil empresas ativas 
  • O faturamento do setor cresceu 10,4% em 2020 
  • Projeção indica 14% de avanço para 2021 
  • Algumas vagas em aberto pagam até R$ 15 mil 
  • RS tem a sétima maior remuneração média do país: R$ 4,3 mil  
No país
  • A defasagem de profissionais pode chegar a 400 mil em 2024 
  • A cada ano, 100 mil novas vagas são demandadas e apenas 46 mil pessoas são formadas  

 

  • Fontes: Gaúcha ZH com informações do IBGE, PIB, Pnad, Assespro-RS, Brasscom
  • Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
  • 12 de setembro de 2021

 

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